Apesar de você (Crônica sobre o UFC e a Rede Globo)

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Você viu que o rival estava faturando pesado com o UFC e, poderosa que é, tirou o doce da boca da criança. Você sempre foi gulosa, mas até aí tudo bem.

Você chamou pra si a responsabilidade de popularizar um esporte estigmatizado por natureza, investiu pesado, comprou a ideia e apostou nela. Está transmitindo reality show, convida lutadores pra entrevista emotiva, chama pra dançar em auditório, pra desmistificar a imagem do guerreiro truculento, pra mostrar que por trás das luvas há alguém que sorri, brinca, sapateia. Tudo válido por demais, registre-se.

Você nota que o MMA é o esporte que mais cresce no mundo, que antes tarde do que nunca o planeta percebe que MMA é como jogar bola, nadar, correr, lutar judô. Você enxerga que ali se ganha, se perde, se chora, mas acima de tudo se respeita, como em qualquer outro evento esportivo e muitas vezes até mais que noutras modalidades.

Você vê que na segunda-feira de trabalho o futebol não monopoliza mais as conversas, que na roda de amigos o nocaute da noite passada e a finalização improvável viraram assunto obrigatório. Você vê que a criança quer bola, mas também quer luva, torce pelo Flamengo, mas é fã de Anderson Silva.

Você se arroga o papel de porta-voz de uma organização que jorrou o tão tradicional boxe à penumbra do esquecimento. Você pediu, comprou, prometeu, iludiu.

Você passou a semana toda anunciando a luta que valia a primeira defesa de cinturão do brasileiro Júnior Cigano dos Santos, o mesmo que havia sido campeão no primeiro evento que você transmitiu. Você que emprestou a voz de Galvão Bueno naquela ocasião como se fosse uma licença pra massificar o UFC, a boa massificação, um nocaute no preconceito, um soco de inclusão.

Você disse com todas as letras que transmitiria ao vivo o embate entre Cigano e Frank Mir. Você anunciou e o Brasil acreditou. Meio cismado, ressabiado de um histórico pra lá de duvidoso, mas deu o famoso voto de confiança.

O país dormiu mais tarde esperando por ver Cigano, mas viu foi A Casa das Coelhinhas, uma divertida comédia na qual Shelley Darlingson leva uma vida sem preocupações até ser despejada da Mansão Playboy e se envolver com um grupo de universitárias excluídas. Uma película imperdível, inadiável, indescritível.

Enquanto o Brasil se deliciava com as peripécias de Shelley, Cigano destroçava Mir em Las Vegas. Nisso, o amigo com pay-per-view ligou extasiado e entregou o resultado, a internet já bradava em alto e bom som a vitória brasileira, sinais de fumaça revelavam que havia vida, sonho e esporte para além das Coelhinhas.

Havia também milhões de frustrados. Você passou o VT uma hora depois, típico remendo terceiro-mundista, o velho jeitinho brasileiro de sempre.

Você nocauteou o povo brasileiro mais uma vez. Golpe baixo não vale.

Creditos MMAMAGAZINE

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