“Me leva que eu vou, sonho meu. Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu”. Após 83 anos de carnavais e 18 títulos de campeã, a escola de samba da Mangueira vai debutar no mundo das lutas. A quadra, acostumada a receber ensaios no sábado à noite, vai abrir espaço hoje, a partir das 21h, para a 34 edição do Jungle Fight, o segundo realizado em uma favela pacificada do Rio de Janeiro.
No evento, três lutadores nascidos e crescidos na comunidade vão estrear profissionalmente no MMA: Cleiton Ramos, o Cleitinho, Rogério França, o RG, e Marcos Vinícius, o Cabecinha. Os atletas ecoam o mesmo coro com a oportunidade dada: a hora é essa!
— A vida na comunidade nunca foi fácil. Mas a luta me deu um rumo na minha vida, me deu um objetivo. A oportunidade que um dia ganhei para treinar e lutar, agora estará mais acessível para a nova geração que cresce aqui — diz Cleitinho, de 28 anos.
Aos 33 anos, o mototaxista RG ganha a chance de entrar num octógono. O sonho de ser lutador era alimentado desde a infância. Agora, será uma realidade.
— Fico até arrepiado só de pensar. Se eu vencer, muitas portas irão se abrir, principalmente patrocínio. Por isso, essa luta é minha — afirma o atleta.
Passistas como ring girls
Assim como os três lutadores, duas passistas da comunidade vão estrear no octógono. Usando o uniforme com as cores da escola, Juliana Carvalho e Evelyn Bastos, ambas de 18 anos, serão as ring girls do evento, e vão fazer a alegria dos torcedores.
— Quando me chamaram nem acreditei. Fiquei muito feliz e prometo fazer bonito. Agora não estou nervosa, mas na hora, com lutadores me olhando, vai dar frio na barriga — diz Juliana, que desfila pela escola desde os 9 anos
MMA: Raíssa Oliveira será ring girl na primeira edição do Beija-Flor Fight Combat
O pliê de uma ex-bailarina se encontrará com o breaking de uma ex-dançarina de street dance. Juntos, os dois movimentos formariam uma linda coreografia de balé contemporâneo. Mas é no octógono, com jabs e nocautes, que elas vão se cruzar. Ao som do tamborim e do repique, as feras Bete Tavares e Jeniffer Araújo vão brilhar ao lado da bela rainha de bateria Raíssa de Oliveira. Acostumada com o glamour da Marquês de Sapucaí, a estonteante morena será ring girl e estrela da noite. E, pela primeira vez, verá sua escola do coração receber um evento de MMA no próximo final de semana: o Beija-Flor Fight Combat.
O evento na Beija-Flor terá três superlutas, sete profissional e mais duas lutas amadoras na quadra da escola. Só uma terá mulheres. De um lado está uma atleta de 30 anos, que participou da seleção brasileira de boxe e já desfilou na comissão de frente da atual campeã do carnaval do Rio. Porém, nunca pensou ser lutadora.
— Entrei nesse mundo porque queria emagrecer, após o nascimento da minha filha. Comecei no boxe, parei e voltei agora com o MMA. E hoje à noite, será uma honra lutar dentro da quadra da minha escola — diz Bete Tavares, que mora em Nilópolis e luta pela academia RFT.
Do outro, estará a auxiliar de lojista de uma transportadora e cria da Vila Cruzeiro, comunidade do Complexo do Alemão. Entre pneus velhos, luvas e outros materiais esportivos doados, Jennifer é uma dos 80 alunos do projeto social da Academia Relma. A jovem de 24 anos, há dois no MMA, quer buscar seu lugar ao sol.
— Tudo sempre foi difícil na minha vida. Aqui terei minha grande oportunidade. Nunca venci uma luta e estou preparada para ganhar o primeiro duelo no octógono. Contra os da vida eu luto há muito tempo. Aqui, somos guerreiros da comunidade — diz, confiante.
Habituada com os olhares atentos do Carnaval desde os 12 anos, Raíssa, desta vez, se sentiu intimidada. É a primeira vez que a morena ocupa o posto de “ring girl”.
— Só tinha visto luta pela televisão. Fiquei com medo deles na primeira vez que os vi. Todo mundo tem cara de mau. Mas já estou me acostumando, fui muito bem recebida — ponderou a rainha, que prometeu sambar na “passarela”. — Vamos trazer um sambinha para aliviar a tensão.
